quarta-feira, março 09, 2016

A menina do cabelo verde

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        Iluminava a minha vida como se eu fosse o satélite natural, e ela a maior estrela de todas. Suas falas verdadeiras eram como se fossem flocos de neve caindo lentamente nas costas dos que nasceram nos trópicos – uma surpresa fria, porém alegre. Dia após dia eu via seu cabelo de cor incomum crescendo, juntamente com o sentimento aqui dentro, que mais tarde descobri que era esperança tingida de uma cor que eu desconhecia o nome. Tudo aquilo me fazia feliz, de tal forma que era como se essa fosse a única sensação que existisse para possuir.            

          Quando a menina tomou o impulso do respiro para iniciar um pedido, imediatamente respondi, sim, claro, vamos imediatamente. Não houve alarde ao redor. Ela engoliu o ar, que acabou por fornecer oxigênio para que lhe nascesse um sorriso amarelo na face. Em seguida falou, eu não sabia que você lia pensamentos. E eu não lia. Eu mal leio letreiros gigantescos em avenidas minúsculas. Só leio livros, mas respondi, eu leio até as almas dos que ainda nem nasceram, leio até os contos que jamais serão escritos. Ela ficou impressionada, e meu interior tingiu-se de vermelho. De tanto orgulho, de tanta timidez que jamais demonstro – que é para a cor não misturar-se com o tom do cabelo dela, e atiçar o meu daltonismo.                                                                  
      Pronto, chegamos, ela me mostrou o local utilizando suas mãos que pareciam mais felizes que a boca que sorria cheia de dentes. Balançavam frenéticas como se estivesse a coreografar uma música rápida e moderna. Até suas unhas cor de escarlate sorriam faceiras do meu equívoco. Como pude, eu me questionava, meu Deus, meu Deus, como pude compactuar com um absurdo desses, eu me desesperava em silêncio. Não mais era eu um homem. Agora era eu, uma extensão da loucura imposta, a tinta que secou no pote, um menino que compactou inocentemente com o fim do mundo.                                                     
    Pensando bem, nem tudo está perdido, eu dizia para mim, tentando me acalmar e despistar o meu desespero – que não foi me procurar na esquina como eu havia mandado, ao invés disso, grudou na minha roupa e a descoloriu até que ficasse cinza e mole. O que você vai fazer aí dentro, perguntei pausadamente, como se estivesse inventando palavras com raízes provenientes do latim. Vou cortar o cabelo, ela respondeu com uma naturalidade que cortou os meus fios capilares com uma rapidez que cresceram tão rápido, que nem ela nem o tempo repararam. Ela abriu a porta e entrou. Eu poderia tê-la impedido, mas o dia confuso anunciava o fim do verde. Para sempre.                                                                                                                     
     Enquanto o cabeleireiro e a menina compactuavam com a morte de uma cor, convencidos de que eram criminosos inocentes, eu podia ver através do vidro meio embaçado da barbearia, o caos brotando no asfalto do lado de fora, como se fossem árvores sem copas – pois a cor que lhes pertencia em pouco tempo se tornaria uma daquelas estórias contadas pelas avós sobre como os tempos antigos eram bem melhores que os atuais.                                                                                                                             
    A razão para isso, é que parecia que a abundância do mundo tinha origem na cor das pontas do cabelo dela. Cortava e lá ia toda a esperança do mundo. Os conselhos de paz foram ruídos. O povo parou de votar. As crianças desistiram das aulas de piano. As moças deram as costas paras as janelas. Os rapazes abandonaram os estudos. As mães desligaram a TV bem na hora da novela. Os pais não colocaram os carros na garagem. Os professores passaram a falar de trás pra frente, os políticos se mataram afogados em um mar que está sobre nossas cabeças. A confusão seca fez voar os objetos como se fossem fadas, e em pilhas, cada coisa, em seu estado mais desagregado e não polido, encontrou abrigo na outra coisa que também teve coragem de expor a sua feiúra mágica e real. Enquanto nós, os de espírito jovem, apagamos a nossa arrogância de querer ter sempre razão. Sorrimos quase orgulhosos. Em nada nos afetou. Somos livres de toda a vontade, de todos os desejos. O tanto faz após árdua luta, mora dentro de nós.                         
  Quando ela corta o cabelo, apenas observo enquanto a loucura ao redor se propaga como cura contagiosa. A esperança acabou. Ela cortou o cabelo e o tom verde se foi. O abrir mão nos salvou da crueldade do precisar. Não precisamos de nada. Somos jovens e despretensiosamente pretensiosos. Insolentes. Não sabemos o nosso lugar. Aparentemente sem futuros. Não somos prisioneiros do tempo. Entregamo-nos completamente a arte, como se esta fosse o refúgio para os tempos de guerra não declarada. Como se o amor caísse feito chuva sobre nossas cabeças, e nos abençoasse com a simplicidade e com a luz dos que querem e vão mudar o mundo. Dos que olham para o lado e vêem mais do que matéria. Percebem a vida celebrando sua grandiosidade genuína como que se a duas nações irmãs por palavras escritas, faladas, e principalmente sentidas na ponta da língua, igual a tempero forte de nasce em terras distintas.                                                                                                                                        
    Acabei moça, você ficou linda, o cabeleireiro frisou o óbvio, ela sorriu com simpatia, obrigada, respondeu. Deixa só eu abrir essa janela, aqui está meio abafado, ele se dirigiu ao canto esquerdo do salão. Ah ele não sabia, ah, eles nem imaginavam a bagunça que haviam provocado, e que iam além daqueles fios esverdeados sobre o chão alvo. Eu que não ia dizer. Eu apenas ia esperar. Que desordem Jesus, e tudo isso a troco de absolutamente nada. Eu sorri por dentro. Sorriso de desespero faminto de ser devorado e em seguida, inexistido.                                                                                                                             
   O vento entrou acreditando que era um convidado espaçoso e poderia derrubar tudo que apenas iríamos achar graça como as mães de meninos mimados. O ar em movimento sacudiu e soprou os pensamentos da mente dela para a minha. Sei por que de repente todas as minhas visões e ideias ficaram confusas e da cor vestígio da tinta do cabelo dela.  E em ato de escambo imposto, sorriso do meu peito foi parar nos lábios da garota. Ela sorriu de volta e depois eu... Fiquei sem palavras.                                                      
   Comecei a pensar, mesmo que haja o caos lá fora procurarei manter a paz dentro de mim, não como algo branco e característico, mas sim de todas as cores, como um corpo que foi alimentado de sangue de várias etnias, com um pertencer ao mundo que me faça ouvir mais do que falar, que desperte em mim a vontade de seguir em frente mesmo quando tudo estiver errado, e saber que lá na frente tudo vai valer a pena. Sorri confortável, pronto para a luta elegante do argumento, para a revolução das palavras. Segurei a mão da garota, e acenei para o barbeiro como ato de homenagem para um veterano repleto de honra. Abri a porta. O vento nos seguiu, empurrou os fios verdes para fora da porta e os espalhou pela rua. A esperança voltou para o mundo, e tudo voltou a ser como era antes. 

Menos eu.


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Um comentário:

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